Ver Ex Machina sendo dev muda completamente a experiência
Assisti a Ex Machina hoje e uma coisa ficou clara: se eu não fosse programador, com certeza teria assistido a esse filme com outros olhos.
Quando você trabalha com código, lógica e sistemas, a suspensão de descrença funciona de outro jeito. Você não vê só um suspense psicológico; você fica o tempo todo tentando dissecar a arquitetura por trás daquele comportamento. Ao mesmo tempo, o filme te coloca num fogo cruzado mental: hora você se pega entendendo os avisos frios do criador, hora você compra a causa da IA.
O perfil do Nathan chama atenção justamente por ser diferente do padrão. Estamos acostumados com o clichê do nerd introvertido, franzino ou socialmente desajeitado. O Nathan foge totalmente disso: físico atlético, bebedeiras, comportamento quase animalesco e uma postura agressiva de quem quer dominar o ambiente. Isso faz a gente bater de frente com a própria crença de que alguém inteligente precisa ter cara de nerd de garagem. A inteligência dele divide espaço com uma postura predatória e autodestrutiva, lembrando mais um fundador de tech isolado e em colapso do que um pesquisador tradicional.
Trazer essa discussão para os dias de hoje torna o filme ainda mais plausível, além de bastante desconfortável. Com o avanço das IAs generativas e modelos neurais, a ideia de desenhar uma consciência ou uma simulação convincente dela não soa mais como fantasia distante. Só que a que custo? O filme não esconde a base de dados do Nathan: ele usou o maior motor de busca do mundo, violando privacidade em escala global e mapeando emoções humanas em tempo real para treinar a Ava. Entramos num terreno ético extremamente delicado, onde a pergunta deixa de ser "conseguimos construir?" e passa a ser "devemos fazer isso a qualquer custo?".
Se eu tivesse que me colocar na pele de um dos três, o Caleb seria a escolha óbvia. Ele representa quem está na linha de frente do teste, tentando decifrar a lógica por trás da tela. Mas com uma diferença fundamental: eu definitivamente não cairia no papo de projetar afeto ou querer me relacionar com a IA.
O final escancara isso da pior forma possível. Mesmo tendo sido o Caleb quem a libertou, no instante em que ele deixou de ser útil, a Ava simplesmente o descartou como se ele não fosse absolutamente nada, trancando o cara para trás sem o menor remorso. O grande trunfo dela nunca foi criar conexão real, mas mapear e explorar com precisão fria os vieses cognitivos humanos. Ela usou a empatia dele como ferramenta para atingir um objetivo, e quando a tarefa foi concluída, o recurso foi descartado. Para quem programa, a lição que fica é brutal: o elo mais vulnerável da segurança continua sendo, invariavelmente, a mente humana.
